O seguinte texto foi retirado da página do professor do IME, Carlos Alberto de Bragança Pereira, em homenagem a Flávio Wagner Rodrigues. Flávio Wagner Rodrigues também foi professor do IME e faleceu em 30 de julho de 2004, aos 68 anos.

Flávio Wagner Rodrigues (à esquerda)Professor Flávio Wagner Rodrigues (à esq.), Carlos Alberto de Bragança (centro) e José Galvão Leite (dir.)

O ombro amigo do Tio Flávio acabou!
Por Carlos Alberto de Bragança Pereira


Certo dia, discutindo com meu filho, afilhado do Mestre, eu disse a ele, "André, você é um cara de sorte por ter meu ombro para chorar". Perguntei então, "se tivesse eu que chorar, o ombro de quem me acolheria?". Rapidamente me respondeu, "o do Tio Flávio, pô!". Meu argumento não colava! Eu tinha mesmo o ombro do meu querido amigo de toda hora. Flávio Wagner Rodrigues, um grande homem, companheiro, amigo e principalmente possuidor do ombro mais amigo, faleceu no dia 30 de julho em uma UTI do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, no Paraíso, em São Paulo. Tenho certeza que a passagem pelo Paraíso paulista foi a porta para o paraíso de verdade. Acho que se a pergunta fosse feita hoje, meu filho teria que pensar muito antes de responder.

Tive o privilégio de estar com o Mestre no domingo, dia 25 e seu humor estava ótimo. Em um quarto do hospital assistimos a parte do jogo Brasil x Argentina. Fui para casa assim que terminou o primeiro tempo com o empate de 1 a 1. Devia ter ficado até o final para ver sua alegria com a vitória "suada" do Brasil. Tinha-lhe presenteado o livro "O Gene da Matemática" que pensei retratar suas habilidades profissionais. Tenho certeza que ele teve esse gene ativado durante toda a vida.

Naquele domingo, Flávio parecia ter se recuperado, mais uma vez, das agressões que vinha sofrendo nos últimos 12 anos. Aquele quadro era muito melhor do que o dos anos de suas cirurgias. Vencia com muita bravura os tempos duros do pré e do pós-operatório. Importante dizer que a sua lucidez parecia ainda melhor a cada agressão sofrida. Por exemplo, meu colega e amigo Julio Stern pediu minha opinião sobre como orientar seu filho no caminho da Matemática. Disse a ele que a melhor coisa era colocar o Rafael na mão do grande professor. Flávio e Rafael se tornaram parceiros, Mestre/Aluno, a ponto de Rafael ser hoje viciado em probabilidade e combinatória. Hoje faz iniciação científica com uma colega probabilista. Ainda sobre sua lucidez e rapidez de raciocínio, lembro que no mês passado tive um problema que não sabia resolver e lhe telefonei. Minutos depois de desligar, telefonou perguntando se eu não lembrava do problema da distribuição de bolinhas em urnas do livro do Feller. Respondeu então a todas as minhas perguntas. É bom colocar as questões aqui para o leitor se divertir um pouco. Meu problema era saber o número de pontos amostrais possíveis em uma tabela de contingência 2 por 2. Inicialmente, com apenas o total fixo, depois, com uma marginal fixa e, finalmente, com as duas marginais fixas. É claro que podemos obter a resposta depois de algum trabalho, mas em poucos minutos eu duvido.

Para ilustrar o relacionamento alegre que sempre permeou nossa amizade, gostaria de relatar alguns fatos de nosso longo convívio. No dia de meu último contacto com o saudoso amigo, o enfermeiro entrou e disse que eu era muito parecido com meu pai, no caso, o Flávio. O Mestre riu muito lembrando que, tempos atrás, me havia dito que eu subornava o vigia de sua rua, pois toda vez que passava por sua casa e ele não estava, o vigia dizia-lhe que seu filho mais velho tinha passado para visitá-lo. Sou apenas 10 anos mais jovem que ele.

Somos uma legião de admiradores do Mestre. Sérgio, Wagner, Galvão e eu certamente tomávamos sua bênção periodicamente. Outros como Adilson e Cláudia o faziam de forma menos constante, mas também pediam sua bênção. Tínhamos o costume de nos reunir uma vez por mês, pelo menos, para almoçar no meio da semana. Era na verdade um Clube do Bolinha formado apenas por estatísticos do IME (o Duda não é estatístico, mas já trabalhou no Departamento e nos presta uma ajuda inestimável). Certa vez, quando começou o cerco aos fumantes, um repórter entrou por acaso em nosso restaurante preferido, o Rubaiat da Vieira de Carvalho, no centro de Sampa, e entrevistou o Mestre, um fumante incorrigível. No dia seguinte estávamos em jornais e telejornais que estampavam os malandros da USP, incluindo o Galvão (pasmem!), em plena quarta-feira às 14 horas a tomar algumas caipirinhas e outros aperitivos. Nosso clube funcionou a todo vapor antes da primeira cirurgia do nosso mestre.

Certa vez, com os resultados do trabalho de doutorado do Galvão, o problema do número de semanas necessárias para esgotar todas as dezenas do jogo da sena foi resolvido. O Mestre se divertiu e mostrou uma solução muito mais elegante usando sua habilidade combinatória. Mais do que depressa, com meu espírito visionário, escrevi um artigo com as duas soluções, e o submeti em nome dos três ao "Communications". Ele riu muito, pois achava que jamais alguém publicaria uma "besteira" como aquela. O artigo foi publicado e aí ele riu de novo dizendo que a Academia já não era a mesma. Minha grande vitória foi quando nosso artigo foi escolhido para fazer parte do conjunto de abstracts do final de ano do ISI. Ele na verdade nunca se interessou por ter artigos publicados. O que gostava mesmo era de resolver problemas que para nós pareciam insolúveis. Um dos artigos em que o Sérgio foi seu co-autor, submetido novamente nas mesmas circunstâncias (escondido do Mestre), foi publicado no IEEE. Para nós, seus asseclas, não existe, no Brasil, alguém com tanta cultura, seja geral ou na área de teoria das probabilidades. Achar um intelectual em nossa comunidade não é fácil. Se o leitor desejar ver uma contribuição importante de nosso Mestre, veja a Revista do Professor de Matemática desde seu início. E não foi por acaso que traduziu o livro do Feller!

Tínhamos outro Clube do Bolinha que se reunia periodicamente para um almoço, também no meio da semana, de preferência. Era um almoço que durava umas 4 ou 5 horas e certamente não havia como realizar algum trabalho formal nesses dias. Esse era formado por mais amigos ainda. O Mestre, John, Bolívar, Reinaldo, Teófilo eram os mais coroas; depois vinha eu ali na média e depois Sérgio e Duda. Estou sendo injusto com o mestre quanto à idade. John é o extremo superior e o Duda o inferior. Duda, nas palavras do mestre, e como todos vocês sabem, é o único trabalhador de verdade do nosso grupo e certamente o menos Petista de todos nós. Posso dizer, sem titubear, que das coisas que fiz na vida, nossos encontros devem ter sido as mais importantes.

Tenho pena de quem não teve o privilégio de conviver com uma pessoa como nosso Mestre. Flávio era um sentimental! Muitas vezes, ao contar um fato ou falar de uma letra do Cartola, seus olhos se enchiam de lágrimas. Ele convivia com meus problemas com a mesma ou maior profundidade do que eu mesmo. Creio que, tanto o vigia como o enfermeiro, acertaram em cheio quando disseram que ele era meu pai. Dos dois pais que tive, guardo lembranças incríveis. Aproveitei do convívio com os dois pais, Basílio (o biológico) e Flávio (o mestre), tudo que um filho consegue. Sei que de agora em diante vou ter que conseguir a coragem do Mestre para poder enfrentar a vida sem aquele ombro amigo do Tio Flávio. Ultimamente, para matar a saudade do meu Rio antigo, tenho escutado Teresa Cristina cantando Paulinho da Viola. Parte de uma das letras (a adaptação abaixo é minha) me traz o meu compadre na lembrança.

Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim. Eu sou assim e assim morrerei um dia. Não levarei arrependimento nem o peso da hipocrisia. Tenho pena daqueles que se enganam a si mesmos por dinheiro ou posição. Nunca tomei parte nesse enorme batalhão. Pois, sei que além de flores nada mais vai no caixão.