O presente artigo foi publicado pela Folha de São Paulo, quando da morte do Professor João Afonso Pascarelli, sendo escrito pelo Padre Charboneau, vice-diretor do Colégio Santa Cruz.

O professor João Afonso Pascarelli foi docente do IME, no final dos anos 80 e hoje dá nome ao CAEM - Centro de Aperfeiçoamento do Ensino de Matemática "João Afonso Pascarelli".

 

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Folha de São Paulo - 25 de agosto de 1987, página 3 - Tendências e Debates

Do Professor ao Mestre

Nossa época é de grande confusão em todos os domínios. Especialmente no campo da educação, mais do que em qualquer outro.  Não sabemos mais por quais caminhos devem seguir os currículos, quais as vias de equilíbrio entre disciplina e liberdade, quais devem ser as relações entre professor e aluno.

Que seria necessário, então, para que a educação que se oferece à juventude corresponda às esperanças que ela alimenta e que ela traz em si, apesar de todas as aparências?

Eu estaria tentado a resumir o mal da nossa educação dizendo que a maior infelicidade que os jovens conhecem é a de não ter que conviver senão com professores, quando desejam viver ao lado de mestres. Os Mestres que irão abrir-lhes, não apenas o universo do conhecimento, mas que lhes abrirão também os caminhos da vida.

Haveria aqui ampla matéria para uma longa dissertação sobre o assunto. Um recente acontecimento, que pertence a minha história pessoal, leva- me a escolher, antes de mais nada, o caminho do testemunho.

Recentemente faleceu um de nossos professores mais antigos, João Affonso Pascarelli, que compartilhava de nosso ideal, ideal que preside nosso trabalho de educador, desde os primeiros anos da fundação de nossa Instituição. Professor de Matemática de grande valor, ele era antes de mais nada um educador nato e mais do que simples professor, ele havia se tornado verdadeiramente um mestre. Os jovens percebiam isso e o consideravam como tal, a despeito de sua discrição. Por ocasião da missa que foi celebrada quando se deu o seu falecimento, uma de nossa ex-aluna, recém-formada, Ana Amélia Inoue, leu a seguinte carta, que acabara de escrever, para dizer da sua admiração e da sua dor. Eu a transcrevo sem comentários e a levo a sua reflexão:

"Todos nós temos sempre um grande mestre na vida. Sempre é alguém que soube com arte e com amor, nos iniciar nos mistérios do conhecimento. Mas não é só isso. Sempre é alguém que soube, com arte e amor transcender o próprio conhecimento e nos iniciar em alguns dos muitos mistérios da vida. São sempre artistas, sem dúvida. São sempre magos. Alquimistas que formam....e transformam, que nos mostram que aí, na capacidade de transformação, está o poder num sentido mais profundo da palavra. São pessoas que ensinam mais do que a matéria...ensinam o Espírito. Pessoas que despertam a nossa capacidade divina de admirar, de respeitar, de reconhecer uma verdadeira sabedoria.

São, de certa forma, deuses, pois se eternizam na alma da gente. São, no mais profundo e verdadeiro sentido das palavras, Mestres. Você, Pasca, foi assim...um mestre, um mago, um alquimista. Um sábio como tão bem o definiu o Flávio Di Giorgi, outro grande mestre.

Aprendi muitas coisas com você, João... coisas que transcendem de longe a lógica matemática...aprendi a respeitar o conhecimento e reconhecer a sabedoria. E aprendi a admirar os sábios e a respeitar as suas respectivas sabedorias. Você me ensinou a aprender. E, talvez, este tenha sido o ensinamento mais precioso da minha vida. Tal qual um parteiro, você conseguia extrair da gente essa nossa misteriosa capacidade de aprender. E, como um grande feiticeiro, fazia-nos acreditar e descobrir que éramos capazes de ser, também, feiticeiros, descobridores de grandes mares.

Quantas sutilezas estão contidas no mistério da aprendizagem... a maior delas talvez seja a simples fé de que o aluno vai aprender...E a fé move montanhas ... A sua moveu muitas.

Você sempre foi exigente, numa atitude de confiança e respeito à nossa sabedoria e à nossa condição de aprendiz. Lembro de uma prova difícil que você deu para a minha classe, que gerou reclamações fervorosas. E você disse: "o que vocês querem , uma prova para burros?”... a gente era adolescente, queria o reconhecimento incondicional da nossa força, capacidade e inteligência, é claro... E aí... o que estávamos fazendo ali? Ah... éramos aprendizes aprendendo... Aprendendo a crescer.

Lembro-me das suas aulas, João Affonso... não podia chegar atrasado, não podia sentar na janela, não podia por os pés na cadeira, não podia fumar. A gente era adolescente e você era corajoso. Porque pra gente, o desafio era um alimento importante. Desafiar. E ser desafiado era vital. Era através disso que a gente crescia... Mas aí a gente se perguntava o que estava acontecendo, se a gente estava sendo covarde e não queria o desafio ou estava sendo reprimido por forças autoritárias. Tecíamos hipóteses porque havia algo ali que fazia a gente ser pontual, não sentar na janela, não fumar e nem por os pés na cadeira. Excepcionalmente. Algo que a gente um dia descobriu que era autoridade e não autoritarismo, respeito que se impôs por si e não repressão ou covardia.

Outras variáveis faziam parte desta sua equação para que a gente conseguisse chegar nessa sua solução, na sua tradução, Pasca. A música que você amava, a literatura, a sua afetividade, o seu bom humor. Foi uma grande surpresa, quando num churrasco de final de ano, era você que sabia a letra de todas as musicas que apareceram. Você não cantou porque disse que era desafinado, mas ficou ali soprando as letras pra gente cantar e sugerindo músicas: " toca aquela..." e foi ai que eu aprendi a letra de Folhas Secas de Nelson Cavaquinho, que você me ensinou, desta vez, indignado com a minha ignorância.
Pois é mestre ....há sempre muito a aprender. Cada dia mais a gente descobre isso... ainda que as vezes, as equações nos pareçam insolúveis, como a vida e a morte...mas a gente, um dia já aprendeu a resolver equações difíceis e complicadas, não é mesmo?

Tenho um certo alento no coração, quando olho e vejo que você está inteiramente presente dentro de mim, todos os dias, quando estou com as crianças com quem trabalho. E quando eu me flagro tendo essa mesma fé absoluta de que aquela criança tem capacidade de aprender e vai crescer... E que por isso vale a pena investir, vale a pena viver e... morrer. Porque entre a vida e a morte, existe a obra. E a sua Pasca, é de um valor infinito e eterno, e por isso, divino. Não se acaba, não se mata, não se esquece. Mas brota e floresce!!

Tenho muita saudade de você... Muita... Muita. E também da tranquilidade que me vem da lembrança de você nestas ultimas vezes que gente conversou, neste último ano. Sereno... como a dizer que também se aprende a morrer em vida. Não o esqueço, você sabe... você faz muita falta. Ana Amélia Inoue. Julho/1987.”

Uma palavra basta para terminar: feliz o professor que é reconhecido como mestre, e que admirável é a nossa juventude que sabe reconhecer um Mestre.

Pe. Paul-Eugene Charbonneau - doutor em Teologia pela Universidade de Montreal e Vice-diretor do Colégio Santa Cruz